PRIVAÇÃO DO SONO NA PSICOSE

FATORES CAUSAIS, MECANISMOS E ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS

Autores

  • Amanda Moura da Silva

Resumo

O sono é um processo biológico essencial, e sua privação, caracterizada por duração insuficiente ou má qualidade, está associada a um maior risco de transtornos mentais. Perturbações do sono são sintomas comuns em quase todas as doenças psiquiátricas, afetando notavelmente a maior parte dos indivíduos com transtornos do espectro da esquizofrenia. A relação entre a alteração do sono e a psicose é complexa e bidirecional: a disfunção do sono pode ser um sintoma do transtorno, mas a perda de sono pode contribuir diretamente para a exacerbação dos sintomas e para o risco de um primeiro episódio psicótico. A insônia é altamente prevalente mesmo no período prodrômico, antes do aparecimento dos sintomas psicóticos, e a má qualidade do sono está associada a uma pior qualidade de vida e a um risco aumentado de suicídio nessa população. Diante disso, este estudo tem como objetivo sintetizar os achados mais recentes sobre a relação da privação do sono com a psicose, revisando as evidências de que o sono inadequado pode induzir sintomas qualitativamente semelhantes aos da psicose, descrever os mecanismos neurobiológicos que ligam a privação do sono à fisiopatologia da psicose, e discutir as implicações clínicas desses achados para a compreensão e o manejo de transtornos psicóticos.
Este trabalho se trata de uma revisão sistemática da literatura científica. A busca por artigos foi realizada durante junho, julho e agosto, nas bases de dados PubMed e SciELO, abrangendo o período de 2015 a 2025. Para a coleta dos dados, foram utilizados descritores em português, inglês e espanhol, combinados com operadores lógicos booleanos, sendo incluídos artigos originais, estudos de coorte, estudos de caso-controle ou revisões sistemáticas, com exclusão de duplicatas, revisões narrativas, editoriais e estudos de caso isolados.
O conjunto de evidências analisadas aponta que a privação do sono atua como um fator causal na psicose, e não apenas como um sintoma. A má qualidade e menor duração do sono previram a piora dos sintomas com antecedência de até doze dias, e a restrição de sono demonstrou ser capaz de induzir experiências psicóticas em voluntários saudáveis, resultando em significativa paranoia, alucinações e desorganização cognitiva. Os achados neurobiológicos confirmam que a privação de sono atua como um estressor sistêmico, levando à hiperdopaminergia, alteração das redes cerebrais de modo padrão e de atenção dorsal, além de desregulação circadiana e inflamatória.
As descobertas reforçam a importância de integrar a avaliação e o controle do sono como um alvo terapêutico primário no tratamento de transtornos psicóticos. A terapia cognitivo-comportamental para insônia é uma intervenção primária de primeira linha que se mostrou eficaz para problemas de sono em pacientes com transtornos psicóticos, resultando em melhor qualidade do sono e menores sintomas psicóticos em curto prazo, e também em um bem-estar mental a longo prazo. No entanto, a natureza bidirecional da relação entre sono e psicose permanece um desafio a ser totalmente esclarecido, demandando a condução de mais ensaios clínicos longitudinais e controlados.

Downloads

Publicado

2026-03-30

Edição

Seção

Medicina